De vez em quando leio nos jornais locais ou nacionais alguém se indignando porque algum artista dá sua opinião sobre acontecimentos políticos, acham que artista tem de fazer arte e não se meter com política. Outras vezes leio e vejo os próprios artistas se negando a dar alguma opinião política pra não se comprometerem e o argumento é sempre o mesmo: sou artista e artista não deve se meter em política. Equívocos.

Li uma vez uma declaração de um pintor espanhol que, felizmente, não me lembro o nome, afirmando que não se manifestou sobre a guerra civil espanhola porque “era artista e não devia se meter em política”. Na época a Espanha estava sendo esmagada por uma grande sombra que se estendia pela Europa inteira. O leitor há de concordar que um artista devia fazer mais do que simplesmente se dedicar a telas e pincéis, principalmente num momento crucial em que até os pincéis podem ser usados pra uma tomada de posição – tantos artistas fazem e fizeram isso.

Sem nenhum prejuízo à arte em si.

Afirmar que essas coisas da política são apenas “política”, com a qual a arte nada tem que ver, é afirmar que a arte não se preocupa com a humanidade. O assassino se aproximava de arma em punho contra o povo espanhol e uma das vítimas declarava: “Eu sou artista, não tenho comentários a fazer”.

Se o leitor quiser pensar no oposto disso é só se lembrar da Guernica de Picasso, capaz de denunciar as barbaridades cometidas pelos fascistas e perturbar o sono do ditador que as ordenava. Até hoje é um símbolo da arte politizada e, como quadro vai permanecer eterno impedindo que se esqueça o horror da guerra e, contudo, é também uma bela obra de arte, mesmo que seu tema seja tão feio. Porque artista é aquele que transforma a realidade e arte é tomar uma realidade e convertê-la em uma realidade diferente, mudando as relações desta mesma realidade – coisa que o quadro de Picasso realiza perfeitamente. Não acredito que arte seja sinônimo de beleza como se considerava tradicionalmente porque a beleza é uma relação harmônica e pode haver beleza sem arte e também arte sem beleza.

Essa idéia de que arte e política são incompatíveis tem lá sua utilidade social. Serve para silenciar exatamente quem tem talento para se expressar através de qualquer arte, a palavra incluída aí. Acho que ninguém duvida que as idéias, quando transmitidas pela experiência artística tem um efeito poderoso sobre o espírito e podem até ser transformadas em ação.

Isso, aliás, é o que deveriam fazer os artistas de prestígio no Brasil diante dos descalabros políticos a que estamos sendo submetidos por tantos anos. Uma ou outra voz se faz ouvir entre os artistas e cientistas brasileiros e elas, por serem tão ralas e eventuais, acabam se perdendo no emaranhado de muitas contra-ações. Se fossem harmonizadas e orquestradas para emitirem sua opinião diariamente, com o espaço na mídia que têm, seriam de grande valia contra os abusos políticos cotidianos e em escalada crescente.

O poeta russo Maiakovski dizia que a arte não é um espelho do mundo, mas uma ferramenta para consertá-lo. E usou muito bem a sua contra a opressão da época que em nada difere da de hoje.

A idéia equivocada dessa separação entre arte e política nos provoca a indagar até que ponto um artista pode se isolar a si mesmo e a sua obra da vida que o rodeia? Até que ponto sua arte significará algo importante para o País se a vida cotidiana não está embutida nela? Sou daqueles que detestam arte alienada, espetáculos ou filmes construídos apenas para “distrair criaturas já de si tão mal atentas” e que após serem vistos não proporcionam ao espectador nenhuma reflexão. Existe sim uma arte burra , desconectada da realidade, criada apenas para deleite do próprio artista ou de muitos alienados como ele – não é porque agrada  a muitos que significa, necessariamente, alguma coisa. Os maiores best-sellers da literatura são obras para massas, mas frequentemente vazias e de fácil digestão.

Seu sucesso talvez venha exatamente daí: são obras que não perturbam a ordem vigente, que não se aventuram em opiniões diferentes daquelas que a massa quer ouvir, não se atrevem a revelar nada do que já não seja  conhecido. Arte acomodada é o que mais se produz no mundo, mas não é esse o maior e melhor papel de um artista criador.

Escrevendo artigos ou encenando espetáculos, lecionando ou compondo música; pesquisando em laboratórios ou emitindo sua opinião sobre a situação política do seu País um homem  r com o mundo que o rodeia e é sempre o mesmo homem. O que conta é a capacidade intelectual que uma pessoa possui e acredito que quanto maior é essa capacidade intelectual maior é o número de suas faculdades que a capacitam para o exercício de diversas atividades – seja artista ou não. O mundo já está tão compartimentado que o melhor é considerar um criador de qualquer área apenas como um criador.

Assim, não há químicos ou biólogos, há cientistas; não há poetas ou novelistas, há escritores e não há escritores e pintores e músicos, mas artistas. E cientistas e artistas são a mesma coisa: criadores.

Um criador não apenas deve, mas tem obrigação de se envolver com o mundo que o rodeia e oferecer sua visão dele independente dessa visão servir ou não pra alguma coisa.

 

Marcos Fayad é ator e diretor de teatro

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