É BONITO SER FEIO

 

 

Uma única frase do dramaturgo alemão Bertolt Brecht lida há alguns anos me colocou no rumo certo para a minha vida. Ele dizia que quanto mais o mundo fosse se tornando caótico e superficial mais e mais a arte imporia sua importância na vida das pessoas e as tornariam melhores. Parecia um contrassenso, mas não era, hoje eu sei. Ele também intuía que a mediocridade se multiplicaria e chegaria a escalas impensáveis. Acertou nas duas coisas. Quem faz e aprecia a arte verdadeira é cada vez mais uma minoria, aquela parcela de gente capaz de se manter acima da burrice generalizada e atroz em que o mundo mergulhou nos últimos anos.

A grande maioria só aumenta e com ela seus jogos de esconder o que realmente são, sua solidão que já se transformou em doença, seu isolamento de tudo o que se pode chamar de vida. E o pior: não lamenta o estado deplorável a que chegou porque não conhece o outro lado nem sabe avaliar o que deixa de viver e sentir. Medíocres ouvem péssima música e gostam, leem sub literatura e a vomitam nos seus encontros, fazem sexo de péssima qualidade e o alardeiam nos bares, veem arte miúda e a aplaudem de pé.

Até na política os medíocres vencem, elegeram por duas vezes um homem que alardeia sua ignorância, apregoa sua falta de cultura e sente orgulho de dizer que seus pais não sabiam fazer um ó com o copo – tenta nos convencer que é bonito ser feio.

Seus seguidores são milhões de pessoas afins, isto é, os que compartilham suas idéias e ignoram o que a arte e a cultura podem fazer para engrandecer o mundo e melhorar as pessoas como afirmou Brecht. E como ele há muitos outros pequenos homens cheios de seguidores cegos. Que pena!

Pode ser que nunca tenham tido alguém que lhes apontasse um caminho a seguir afora o que seguiram afinal, todos precisamos de um orientador desde que nascemos. Um homem disposto a escapar da horda de bobagens que assola o mundo deveria ter a chance de saber certas coisas.

Saber, por exemplo, que qualquer aforismo do Nietzsche vale mais que todos os discursos idiotas proferidos pelos políticos em qualquer tempo; que três páginas da literatura de Victor Hugo são mais importantes que toda a dramaturgia pífia escrita para alimentar os vários meses das telenovelas e mais inteligentes que todas as pequenas idéias que magnetizam os telespectadores delas; uma sinfonia do Mahler, ouvida à luz de velas é capaz de sanear o espírito e pode curar feridas emocionais; um pequeno desabafo de Antonin Artaud, o louco, pode dar mais consciência que todas as conversas superficiais que um homem medíocre mantém com seus pares; um soluço vocal da grande cantora mexicana Chavela Vargas supera em emoção e verdade todos os sentimentalismos baratos; que qualquer trecho escrito pelo nosso Guimarães Rosa contém mais daquela verdade profunda que sai da boca de um homem simples do que as milhares de páginas escritas por intelectuais metidos a cultos; um cante jondo admirado por Garcia Lorca traz em si mais espiritualismo e religiosidade que todas as religiões juntas; que até o tesão sutil de um poema de Walt Whitman vale mais que todas as bundas e peitos siliconados expostos nas revistas de classe média para o êxtase sexual dos medíocres. E o espaço não dá nem pra tocar em Mozart e outros gênios com poder de nos tirar do rame-rame diário. No entanto, para reconfirmar o que o Brecht disse, pouquíssimos leem Victor Hugo, acham Mahler chatíssimo, desprezam as loucuras de Nietzcshe e Artaud, ignoram Guimarães Rosa, nem sabem quem é Chavela Vargas, apenas ouviram falar em Garcia Lorca...mas acreditam no Código Da Vinci, entram em delírio dançante ao som de Joelma e Chimbinho, vibram de tesão pela garota da capa, discutem a sério os discursos dos políticos, choram de emoção com qualquer dupla sertaneja, tentam desvendar os mistérios da vida alheia através das novelas, desperdiçam a vida sem consciência, dó nem piedade de si mesmos.

O instante que passa, passa definitivamente, nada do que não se viveu volta para que se possa vivê-lo outra vez. Não há segunda chance, o que há, o que ainda dá tempo é o leitor escolher entre uma coisa e outra sabendo que nunca mais recuperará o que já perdeu ou deixou de viver.

Afinal, alguém já ensinou que se você avançar um único passo a cada cem anos, mesmo assim já estará a caminho. Vale a pena.

Melhor que pertencer às fileiras da mediocridade.

 

Marcos Fayad é ator e diretor de teatro

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