Gosto de ler livros depois que eles saem da midia, deixam de ser notícia e sobrevivem nas estantes. Gosto de ler as biografias de Ruy Castro pelo rigor com que pesquisa seu biografado e o prazer com que escreve sobre.            Pelo jeito não estou sozinho nisso. Leia o que escreveu sobre um de seus mais brilhantes livros em que a personagem principal é a nossa Carmen Miranda. Texto de 2006 de uma jornalista que admiro:       

"CARMEN", o livro, é uma felicidade. Escorado numa pesquisa monumental, Ruy Castro criou um retrato vivo, divertido e minucioso, não só de Carmen Miranda, mas de toda a sua época; ele nos leva de um balcão de chapelaria na Rua do Ouvidor a Hollywood dos anos dourados, passando pelo Cassino da Urca e pelos bastidores da Broadway - e nem nos damos conta de que, em dois tempos, devoramos quase 600 páginas.

O que fica claro, terminada a leitura, é que nunca houve uma mulher como Carmen; e que nunca mais conseguiremos vê-la apenas como um exótico produto enlatado, depois de ler o livro. 

Escreveu a jornalista Cora Rónai

A night in rio from DJ LE CLOWN on Vimeo.

VAQUEIRO FIDELIS - E as pessoas, as criaturas que viu, os filhos-de-Deus?                                           

VAQUEIRO GRIVO - Muitos. Todos. Cada um conta acontecimentos e valentias de seu passado, acham que o recanto onde assistem é de todos o principal. O mundo ferve quieto. A gente sabe que esses silêncios estâo cheios de mais outras músicas. Sossegante - os homens - que andavam endoidecidamente sérios, em seus trabalhos e como falavam desses trabalhos, descareciam de mostrar seu receio. E era em toda parte, sempre a mesma coisa, o que um-com-outro falavam.... Velhas descorçoadas tinham medo do viajante, tinham ódio porque ele vinha, chegava e perturbava, porque vinha de longe, de onde nâo se sabia; conhecia muitas coisas, mas coisas que podiam estar já desmerecidas no valor; e entâo deixavam de olhar para mim, abaixavam as caras, conversavam umas com as outras. E era, em toda parte, sempre a mesma coisa, o que umas-com-as-outras conversavam... O senhor ....Mire e veja : o mais importante e bonito do mundo, é isto: que as pessoas nâo estâo sempre iguais, ainda nâo foram terminadas - mas que elas vâo sempre mudando. Afinam e desafinam. _____________________________________________________________

O poeta indiano Rabindranath Tagore diz num de seus poemas:                                       

“Quando o homem trabalha Deus o respeita,   

  mas quando o homem canta Deus o ama.”

A cantora Ana Salvagni que eu também amo e o violeiro Paulo Freire, dos melhores do Brasil.

                                              *********************************************

A escravidão escureceu moralmente e emocionalmente toda a  América Latina, o Brasil inclusive, claro. Esta música é do Hekel Tavares e dá bem uma pequena amostra de como era considerado o negro naqueles anos.              Mas subjugados não foram só os escravos negros, libertados pouco a pouco durante muitos anos. Na América Latina é como se o povo, seus habitantes não existissem ou apenas existissem pra respaldar as ditaduras de pequenos homens que os mantém sob jugo até hoje na Bolívia, no Equador, na Venezuela.

Comumente são tratados como massa de manobra que se vendem por qualquer cestinha de produtos básicos.

Nunca foram tratados com dignidade de homens que possuem suas pequenas histórias, histórias de gente simples – belas histórias do cotidiano.

Um autor uruguaio chamado Eduardo Galeano quis mostrar nos seus livros o outro lado das verdades oficiais e contar essas pequenas histórias do povo latino americano, todas emocionantes, engraçadas, ingênuas, humanas...  O mundo não foi feito apenas por grandes heróis incensados nos livros de história, quem faz o mundo ficar interessante e alegre é o homem – na nossa América

   O grande compositor Hekel Tavares contou nessa letra, LEILÃO, em poucas palavras toda a vivência de um escravo que é a de todos os escravos.

Hekel Tavares (1896-1969) foi um compositor, maestro e arranjadorbrasileiro. Estudou piano com uma tia e, ainda criança, aprendeu harmônica e cavaquinho, mas sua maior paixão era a música popular, principalmente a que vinha dos cantadores de desafios e dos reisados.

 

Está à venda no Brasil o Livro “MARA RUBIA A Loura Infernal” sobre a maior estrela do teatro de revista que o País conheceu nos anos 40/50

Por tudo que realizou, Mara não merecia o esquecimento a que foi relegada. Com este livro, ela retorna ao posto que sempre foi dela: o de estrela. Mara Rúbia voltou a brilhar.” Artur Xexéo

“Em cena aberta, o Teatro de Revista e sua vedete maior, Mara Rúbia. Nos bastidores, a loura infernal, seus afetos, seus amores, sua imbatível alegria e os caminhos de uma longa carreira pelo teatro, cinema e televisão brasileiros.” Heloisa Buarque de Hollanda

O livro fala da trajetória de Mara Rúbia, que começou a carreira no Teatro de Revista e se tornou uma celebridade num cenário de estrelas, como Renata Fronzi, Virgínia Lane, Oscarito, Grande Otelo, Walter Pinto, Dulcina de Moraes e Bibi Ferreira. A obra aborda a vida pessoal e artística de Mara, que foi também atriz de teatro, cinema e televisão.

Nele há um texto/depoimento que escrevi sobre os sete anos em que vivi na sua casa quando ela já estava uma senhora madura e não mais atuava.

Aqui está o texto na íntegra.

 

 

                                                         MARA RUBIA, ILUMINADA

Toda a minha infância foi povoada por fotografias de uma mulher exuberante, loiríssima, sobre imensos saltos, maiôs de paetês, um sorriso contagiante e olhinhos apertados.       Ela era cultuada por dois dos meus tios, jovens de 21 anos que viviam em Catalão, uma pequena cidade do interior de Goiás onde nasci. Na parede do quarto deles eram dela asúnicas fotos, recortadas carinhosamente da revista O Cruzeiro, a deusa em diversas posições, todas iluminadas por aquele sorriso que ninguém mais tinha. Eles a veneravam. Quando ouviam pelas ondas sonoras da rádio Nacional do Rio de Janeiro que a estrela ia fazer mais um espetáculo, começava a batalha para convencer meu avô de que eles iriam ao Rio, dias de viagem extenuante, só para assistir ao espetáculo onde brilhava seu ícone chamado Mara Rúbia.  Quando retornavam, eu, menino curioso, queria saber tudo sobre ela e eles passavam dias contando às minhas tias o que tinham visto. Elas e eu ouvíamos tudo embasbacados com a profusão de detalhes dos cenários, dos figurinos, das piadas, dos números musicais, das cenas que a estrela improvisava com os espectadores – era uma maneira de participar daquele evento quase anual que eles aguardavam com ansiedade, eu também. Meu avô era assinante da revista O Cruzeiro e minhas tias solteiras compravam religiosamente as revistas Cinelândia e Revista do Rádio onde eram muito comum as matérias com a vedete Mara Rúbia.

Muito anos depois, já adolescente, saí da cidadezinha direto para o Rio de Janeiro, cheio de caraminholas na cabeça, uma hora me imaginando um cantor como os que ouvia na rádio Nacional, outra hora apenas como um fã privilegiado que pudesse conhecer de perto a Emilinha Borba, paixão de uma das minhas tias ou a Marlene, amada por outra tia mas acima de tudo, uma vontade secreta de, como os meus tios jovens, ver aquele sorriso a que eu já tinha me acostumado. Mas quando cheguei ao Rio, nos anos 60, o tempo havia passado, ela não trabalhava mais, nunca a vi nem soube mais dela, as estrelas eram outras.

Um dia, já estudante de Psicologia da PUC, atuando num grupo de teatro universitário que havia formado, resolvemos montar “O Balcão” do Jean Genet e, apoiados pela Universidade, queríamos alugar um local de ensaios. Alguém me informou que o melhor local de ensaios era o espaço que uma senhora chamada Mara Rúbia tinha em seu apartamento triplex em Copacabana.  Nem pestanejei, com o endereço na mão corri para Copacabana e com o coração querendo me sair pela boca, toquei a campainha daquele apartamento.

Uma velha senhora de cabelos desgrenhados, peignoir de seda, copo de uísque na mão, completamente bêbada e quase rude, abriu a porta. Minha infância despencou sobre minha cabeça, acho que foi a primeira vez na vida que senti a passagem implacável do tempo. Minha cabeça rodopiou em lembranças.

Gago eu disse que queria falar com dona Mara Rúbia já sabendo que era ela, os mesmos olhinhos apertados inconfundíveis, subjugados pelo álcool, mas intactos na sua vivacidade.

Relutou em me mandar entrar por alguns longos minutos até que eu consegui balbuciar o motivo da minha visita inesperada. Disse o preço do aluguel e as condições e pediu que sua mãe subisse comigo as escadas para ver o local. Ficou sentada na sala me aguardando um tempo e quando eu já havia pago o primeiro mês de aluguel ela me perguntou que peça o menino ia montar com os estudantes. Eu disse que era Jean Genet e ela, expressão irônica, me chamou de “atrevidinho”, entre carinhosa e crítica. Saí trôpego. Todo o tempo da conversa ela esteve com o copo de uísque na mão, quando enrolava uma palavra ou outra sua mãe tratava de clarear o que ela queria dizer. Mas eu não conseguia prestar atenção em mais nada, tentando adequar a visão daquela velha senhora com a exuberância da vedete que ocupou tanto espaço do menino que eu fui. Era impossível, a não ser pelos olhinhos espertos e absolutamente únicos.

Durante os mais de dois meses em que ensaiamos lá eu a via com o copo na mão, despencada sobre um sofá que havia no salão de ares decadentes, um piano de cauda, cortinas que um dia foram belas. Nem tomava conhecimento das pessoas que entravam para o ensaio mas quando eu entrava ela dedicava um minuto de atenção para me olhar intensamente, perguntar se estava gostando do local, se queria água, coisas assim.

Até que criei coragem de um dia convidá-la para assistir nosso ensaio. 

Ela me olhou seríssima, tentando parecer sóbria, me perguntou se era uma gentileza ou se era verdade. Eu lhe respondi que queria muito que ela assistisse, que sua opinião ia ser importante para nós jovens atores, que era gentileza e verdade. Seu olhar foi inundado de lágrimas sem que ela esboçasse um choro...apenas me encarava em silêncio.

Daqui a pouco eu subo lá, respondeu. E já estávamos começando o ensaio quando ela subiu as escadas apertadas, não mais de peignoir e chinelos, mas vestida e calçada, os cabelos desgrenhados agora mais ou menos ajeitados, sem o copo na mão.

Paramos o ensaio para saudá-la e oferecer-lhe a melhor cadeira ao meu lado. Todos percebemos que ela marejava os olhos durante mais de duas horas de ensaios sem chorar, ereta na cadeira com uma dignidade de quem estava outra vez no seu universo. Havia alguma coisa se passando na sua cabeça, não emitiu nenhuma palavra, mas estava visivelmente encantada de poder participar daquilo, e nós também. Que belo momento.

Foi ali que eu ganhei sua confiança para sempre, um afeto que nunca mais se dissipou, mutuamente nos amamos na cumplicidade daquele instante mágico proporcionado pelo teatro. Pedi sua opinião e ela falou uma meia hora sobre o que tinha visto, principalmente sobre a personagem Madame Irma que uma jovem atriz ensaiava, e todos os seus comentários eram pertinentes, aguçados, cheios de uma espontaneidade e clareza que eu não podia ainda perceber. Faria a  personagem Madame Irma fantástica, tenho certeza.

Alguns dias depois disso, quando precisei me mudar de apartamento, ela me emprestou o telefone para ligar para uma imobiliária através dos classificados do jornal e ouviu do sofá minha conversa. Perguntou pra onde eu ia me mudar, se eu não queria alugar um quarto com varanda na sua casa, poderia inclusive fazer as refeições com ela, Ronaldo seu filho e dona Cesarina sua mãe, lá mesmo, que eu teria toda a privacidade que quisesse, que ela não interferiria na minha vida de estudante, que gostava de mim porque eu ia ser um grande artista, que admirava minha coragem de sair do interior do Brasil para o Rio, que ela também tinha feito esse trajeto vinda do Pará, que gente do interior era mais confiável, que o Ronaldo ia me aceitar, que seu apartamento era grande demais só para eles, que eu seria um filho a mais....me fez sentir que me queria ali. E eu concordei. Passei muitos anos na sua casa, fui amado por ela e a amei como a uma pessoa a quem conhecia desde a mais longínqua infância.

Com o tempo fui me acostumando com seu copo de uísque, um certo humor amargo, aquela convivência respeitosa entremeada de algumas manifestações de carinho.

Numa noite ela me viu pintando uma tela na varanda do quarto e perguntou se podia ver o quadro. Entrou e se sentou na varanda ao meu lado, bebendo como sempre, e tivemos a primeira de uma longa série de conversações enquanto eu pintava. Aquilo virou um ritual tão intenso e permanente que ambos sentíamos falta dele quando, por algum motivo, eu não ficava em casa à noite ou quando viajava para passar as férias com meus pais em Goiás.  Mas mesmo quando eu estava na casa dos meus pais no interior ela me telefonava de vez em quando para conversar, falar alguma coisa com minha mãe ou com meu pai, me elogiar, me contar uma briguinha ou outra que ela tivera com dona Cesarina sua mãe, ou das bebedeiras mensais que o Ronaldo encarava e que a perturbavam muito. Quando alguma coisa a tirava do eixo se transformava numa fera, assustava.

As conversas na varanda me fizeram conhecer tudo, todos os detalhes de sua vida agitada desde os tempos em que resolveu abandonar o marido no Pará e despencar com os filhos para o Rio de Janeiro, passando pelo início no teatro de revista quando conheceu Walter Pinto, até os grandes momentos que viveu na Praça Tiradentes nos grandes espetáculos, seu amor por um médico, creio, que durou muitos anos, seus filhos...suas inquietudes.

Foram meses, anos ouvindo casos, minúcias das criações, histórias dos bastidores, as invejas e ciúmes que teve que enfrentar, de como tinha sido amada pelo Brasil e ao mesmo tempo odiada pelos moralistas de quem ela debochava com muito humor.

Durante meses acompanhava meu ritual de pintar, sempre elogiando, me incentivando.

Numa dessas noites eu criei coragem de perguntar por que ela bebia, se gostava de se ver assim e ela me disse que detestava, mas que eu era muito jovem para entender a alma de uma mulher que tinha tido tudo e não via mais perspectivas. Então eu, finalmente, lhe contei a história que abre esse depoimento, do amor que meus tios lhe tinham, de como ela povoou minha infância, das dificuldades que eles enfrentavam na longa viagem para vir assisti-la no Rio, das fotos maravilhosas que me acostumei a ver no quarto deles, e ela chorou muito enquanto me ouvia. Chorava e ria da simplicidade com que eu lhe contava coisas que ela nunca podia imaginar – dois rapazes se deslocando do mais profundo interior do Brasil movidos apenas pelo entusiasmo de assistir sua estrela brilhar nos palcos da Praça Tiradentes. Eram quase duas horas da madrugada quando ela se levantou para ir dormir e me disse solenemente, de pé: “A partir de amanhã você nunca mais vai me ver com um copo na mão. Vou parar de beber”

Não sei se acreditei naquelas palavras na hora, mas o fato é que por mais de dez dias não a vi mais perambulando pela casa, não se sentou mais na mesa para o almoço com Ronaldo e eu. De vez em quando observava dona Cesarina passar com um suco de laranja, algo para comer, apressada subindo as escadas em direção ao quarto onde ela se trancou.

Sabia pelo Ronaldo que ela estava enfrentando muitas dores, muita ansiedade mas que resistia firme. Estávamos todos preocupados mas, por fim, numa manhã chego da Faculdade e a vejo abatida mas bem arrumada sentada à mesa para almoçar conosco. Nos comportamos como se nada houvesse acontecido, almoçamos em silêncio, ela me perguntando alguma coisa para descontrair o ambiente, nada sobre o que havia passado.

Nunca mais a vi bêbada. Nunca mais bebeu e foi se recuperando a olhos vistos, intercalava gargalhadas num dia, às vezes ficava calada, deprimida, uma noite aceitou ir ao cinema comigo ao lado da sua casa, fomos ver “Easy Rider” e me lembro que ela chorou muito, me disse que era um pouco out-sider como a personagem do filme. Voltou a freqüentar a varanda do meu quarto para conversar, sempre com um suco de laranja carinhosamente oferecido por sua mãe de hora em hora.  Ela, Ronaldo e eu passávamos muito tempo juntos, de vez em quando recebíamos a visita de um maquiador antigo que a adorava chamado Jotinha e que cuidou da sua maquilagem e cabelos nos áureos tempos de estrela. Hoje era um velhinho de imensos olhos verdes que contava histórias deliciosas daqueles tempos. Tinha certo ciúme de mim e não procurava disfarçar, até que a Mara lhe passava uns carões na frente de todos e ele voltava a me tratar bem.

Esse Jotinha havia trabalhado em Hollywood maquilando estrelas de cinema e tinha muito orgulho disso. Mara me contava que ele enlouqueceu muitos homens, de amor, porque era belíssimo. Também desenhava aquarelas fantásticas que ia acumulando no quarto do Ronaldo, que também pintava como eu. Formávamos um quarteto divertido quando todos estávamos de bom humor, conversando noite adentro.

No ano seguinte, já recuperada do álcool, eu a convidei para ir passar uns dias na fazenda da minha família em Goiás, estava chegando as férias e eu sempre ia por dois meses para a casa dos meus pais. Ela me disse que detestava mosquitos e vida no campo, e ria às gargalhadas. Dois dias antes de viajar eu atendi um telefonema de um homem chamado Oscar Ornstein, na época um grande produtor de espetáculos. Ela estava repousando e ele ligou mais tarde. Eu só ouvia ela dizer que não, que não tinha mais condições físicas de fazer teatro, que estava muito desgastada, que não queria...mas senti que ele insistia e ela ia ficando cada vez mais indecisa, senti que precisava de um estímulo apenas, porque ficou muito mexida com aquela proposta do produtor. Conversamos toda a tarde sobre a proposta, era para ela estrelar um espetáculo junto com o Jardel Filho, se não me engano, um musical que não me lembro mais o nome.  Falei tanto, dei tanta força a ela, insisti , disse que ela podia fazer uma plástica com o Pitangui, cuidar do corpo e da voz, e ela foi ficando abalada, mas animada.  À noite voltei ao assunto porque ela me contou que o Oscar Ornstein havia ligado outra vez. Eu ia viajar no dia seguinte para Goiás e ficaria longe do Rio por dois meses. Quando eu ia saindo para o aeroporto ela me pediu que quando chegasse o dia de voltar ao Rio eu telefonasse para ela avisando o dia e a hora em que chegaria. Concordei, sem entender muito bem porque. E fiz isso.

Dois meses depois telefonei para avisar que chegaria às 15horas do dia seguinte.

Quando toquei a campainha do apartamento ouvi uma música alta que vinha de dentro, um jazz qualquer, exagerado. A porta é aberta e no meio dela, segurando no portal estava rediviva a estrela: ela estava luminosa, vestida de paetê, preto, cabelos recém-pintados de platinum blonde, maquiada com esmero, saltos altíssimos, sorriso imenso, pose de vedete.

Deu um grito glorioso e me beijou. Era de novo a Mara Rúbia!

Me contou que no dia seguinte à minha viagem ela se internou numa clínica de cirurgia plástica, recauchutou-se, chamou o Jotinha para ajudá-la a se vestir e maquilar só para me fazer essa surpresa. Eu estava atordoado com seu vigor, sua transformação.

Tinha aceitado o convite do produtor, já estava ensaiando há um mês o espetáculo que estrearia no Teatro Ginástico. Dona Cesarina exultava com aquela volta triunfal, Ronaldo não disfarçava seu orgulho e entusiasmo, Jotinha sentia que voltaria aos velhos tempos de maquilador de prestígio...a casa era uma festa. 

Mas o grande momento seria o da estréia do musical. Começa o espetáculo, estávamos todos na platéia, cheios de expectativas, seus antigos fãs , seu filhos, a imprensa em peso, e depois de uns dez minutos de iniciado o espetáculo ela surge em cena, gloriosa.

Toda a platéia se pôs de pé, ela não podia falar seu texto tal o ruído das palmas. A estrela pára no fundo, encara aquela multidão de pé, e aguarda que as palmas se aquietem um pouco para dizer as palavras que me fizeram chorar todo o resto do espetáculo:

“Só fiz plástica no rosto, mas o coração é o mesmo!”  e ovacionada, começou a dizer seu texto.   Estive presente na noite mais empolgante que um artista pode viver, nenhuma das minhas próprias estréias se comparam com aquela em alma e alegria.

Para completar, emocionado, ouvi dela no dia seguinte que tudo o que ela estava vivendo era “minha culpa”, que eu era um “diabinho árabe” que entrou na sua vida para desarrumar o que estava acomodado.  Bendito diabinho, ela completava.

Depois disso fez um filme “Os Deuses e os Mortos” , outro espetáculo teatral, novelas, uma longa entrevista para o Pasquim...ressuscitou.

Quando tive que me mudar de sua casa para meu próprio apartamento, sofremos os dois, mas ela já caminhava decidida outra vez, não foi uma despedida triste.

Anos depois quebrou a perna e ficou paralisada em casa de sua filha Terezinha Marçal.

Eu telefonei algumas vezes querendo ir visitá-la, mas ela me desencorajava:

“Não venha, não quero que me veja assim, porque eu estou feia

Era linda!

A mulher mais linda que já conheci na minha vida.

 

                                _______________________________________

 

Sempre achei sua pintura um mistério: figuras longilíneas, cínicas, vestidas de maneira inusual, esteticamente belas encarando quem as olha. Carlos Sena Passos. Foi-se embora recentemente sem que eu o conhecesse pessoalmente, um desses planos que a gente tem e vai adiando...até que a morte os interrompe. Foi assim com ele, baiano/goiano com uma cara simpática e uma pintura enigmática. Posto duas de suas telas pros amigos que não o conhecem e pro deleite dos que também, como eu, apreciavam sua arte.

Pra saber mais dele é só entrar no blog: http://carlossenaarte.blogspot.com.br/

Mais uma tela do pintor Carlos Sena Passos, falecido recentemente.

Intrigante...é o mínimo que se pode dizer de sua pintura.

Um extrato de texto do Caio Fernando Abreu, escritor brasileiro, gaúcho que nasceu em 1948 e morreu em 1996.        Texto positivo, esperançoso e, por isso mesmo, comovente. 

Te desejo uma fé enorme.
Em qualquer coisa, não importa o quê.
Desejo esperanças novinhas em folha, todos os dias.
Tomara que a gente não desista de ser quem é por nada nem ninguém deste mundo.
Que a gente reconheça o poder do outro sem esquecer do nosso.
Que as mentiras alheias não confundam as nossas verdades, mesmo que as mentiras e as verdades sejam impermanentes.
Que friagem nenhuma seja capaz de encabular o nosso calor mais bonito.
Que, mesmo quando estivermos doendo, não percamos de vista nem de sonho a ideia da alegria.
Tomara que apesar dos apesares todos, a gente continue tendo valentia suficiente para não abrir mão de se sentir feliz.
As coisas vão dar certo.
Vai ter amor, vai ter fé, vai ter paz – se não tiver, a gente inventa.
Te quero ver feliz, te quero ver sem melancolia nenhuma.
Certo, muitas ilusões dançaram.
Mas eu me recuso a descrer absolutamente de tudo, eu faço força para manter algumas esperanças acesas, como velas.
Que o novo ano seja doce. Repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.
Que seja bom o que vier, pra você.

       ___________________________________________________________


Já disse aqui que esta é minha música preferida de todas que conheço. E não considero que ela foi escrita pra uma mulher, mas que Jacques Brell a cantou para a vida quando soube que tinha uma doença fatal da qual não escaparia e pediu:                                                               – NÃO ME ABANDONE, NÃO ME ABANDONE - .

Basta prestar atenção à letra.

Se não foi pra vida que ele a cantou fica sendo porque é assim que eu a ouço quase todos os dias.      Com a Maysa a música se reveste de mais dramaticidade. Por isso quis postá-la novamente no blog: tem mais a ver com o momento que vivo.                                                         

Como eu nunca me canso de ouvi-la, espero que meus leitores também

Não resisti e decidi postar esta cena de um fenômeno artístico do momento no Rio de Janeiro e agora em São Paulo.      A partir do título, um primor de originalidade, tudo neste espetáculo emociona porque todo brasileiro de bom gosto musical ama a Elis Regina. Escolhi esta cena dela e do Jair Rodrigues - os anos a tornaram antológica e mantém a mesma alegria dos anos 60 quando foi cantada pela primeira vez e depois gravada. Laila Garin, a atriz que interpreta Elis e todos os atores seus parceiros de cena revelam a grandeza e a versatilidade do teatro brasileiro. Quem assistiu o musical ou quem não o viu ainda vai se deliciar da mesma maneira, é certo. Quer comprovar? Assista aqui.

28
MAR

RUBEM ALVES

Este homem é filósofo, psicanalista, teólogo, poeta. Escreve textos onde todos esses conteúdos aparecem, mas gosto muito mais dele quando deixa de lado os títulos e escreve apenas como um mineirinho caipira.   O texto abaixo é assim: divertido, tem informações e suposições e até sabedoria que ele esbanja por conta, não de seus títulos, mas de sua maturidade. Por isso quis dividi-lo com os leitores do blog.

                                  _____________________________________________________

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.

Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...


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2011. Pensar Não Dói - Blog do ator e diretor Marcos Fayad.
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