Diálogo entre pai revolucionário dos anos 60 e filho alienado dos anos 80.    

MANGUARI- ...Não posso mais, não posso mais viver com uma pessoa que me olha como se eu estivesse morto! Como se todas as pessoas que estão aí fora gemendo no mundo fossem a mesma coisa! Como se não houvesse dois lados! Isso é o que eu aprendi quando tinha sua idade. Que existem dois lados. E eu sempre estive ao lado dos que tem sede de justiça, menino! Eu sou um revolucionário, entendeu? Só porque uso terno e gravata e ando no ônibus 415 não posso ser revolucionário? Sou um homem comum, isso é outra coisa, mas até hoje ferve meu sangue quando vejo do ônibus as crianças na favela, no meio do lixo, como porcos, até hoje choro, choro quando vejo cinco operários sentados na calçada, comendo marmitas frias, choro quando vejo vigia de obras aos domingos, sentado, rádio de pilha no ouvido, a imensa solidão dessa gente, a imensa injustiça. Revolução sou eu! Revolução pra mim já foi uma coisa pirotécnica, agora é todo dia, lá no mundo, ardendo, usando as palavras, os gestos, os costumes, a esperança desse mundo, você não é o revolucionário, menino, o revolucionário sou eu, você, no meu tempo, chamava-se Lorde Bundinha que nunca negou que era um fugitivo, você é um covardezinho que quer fazer do medo de viver, um espetáculo de coragem!

LUCA- Eu já lhe disse, você é que pensa que é revolucionário, é a doce imagem que você faz de você, pai, mas você é um funcionário público, você trabalha pro governo! Para o governo! Anda de ônibus 415 com dinheiro trocado para não brigar com o cobrador e que de noite fica na janela, vendo uma senhora de peruca tirar a roupa e ficar nua! (Manguari dá um tapa na cara de Luca, avança para ele, Nena se interpõe, ficam embolados) _________________________________________________________

 


Como prometi há meses, posto mais um trecho do livro do escritor argentino José Ingenieros “O HOMEM MEDÍOCRE”. Livro pra se ler e reler várias vezes.

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“A caixa cerebral do homem rotineiro é um estojo vazio.Não conseguem raciocinar por si mesmos como se lhes faltasse o miolo.                                                                            

Uma lenda antiga conta que quando o criador povoou o mundo de homens, começou fabricando os corpos como manequins. Antes de colocá-los em circulação levantou suas calotas cranianas e encheu as cavidades com a massa divina, amalgamando as aptidões e qualidades do espírito, boas e más. Fosse imprevisão ao calcular as quantidades, ou desânimo ao ver os primeiros exemplares de sua obra prima, muitos ficaram sem a mistura e foram enviados ao mundo sem nada dentro. Essa legendária origem explicaria a existência de homens cuja cabeça tem uma significação puramente ornamental.               

Vivem uma vida que não é viver. Crescem e morrem como as plantas. Não necessitam ser curiosos nem observadores. São prudentes por definição, de uma prudência desesperante: se um deles passasse ao lado da torre inclinada de Pisa, se afastaria, receando ser esmagado. O homem original imprudente, detém-se para contemplá-la; um gênio vai além: sobe à torre, observa, medita, ensaia até descobrir as leis mais sofisticadas da física. Galileu.                                                                                                                                  A cultura é o fruto da curiosidade, dessa inquietude misteriosa que convida a olhar o fundo de todos os abismos. O ignorante não é curioso; nunca interroga a natureza. (...)               

O medíocre é solene. Na pompa grandiloquente das aparências busca um disfarce para seu vazio íntimo. A mediocracia exige de seus atores certa seriedade convencional. Acham que o bom humor compromete a respeitabilidade e estimula o hábito anarquista de rir.           

O mais sábio e o mais virtuoso dos homens – Sócrates – dançava”

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Prometi aos leitores do blog postar extratos do grande livro O HOMEM MEDIOCRE do escritor argentino José Ingenieros que, de maneira profunda e aguda, fotografa a alma deste homenzinho que hoje é maioria no mundo tornando tudo estreito, falso, vulgar, feio.O medíocre, mero esboço de homem, instalou uma ditadura do gosto médio que acinzenta os mais recônditos comportamentos humanos e borra a arte, a literatura, as ciências, a amizade e o amor.

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“O homem medíocre não tem ideais e faz da arte um ofício, da ciência um comércio, da filosofia um instrumento, da virtude uma empresa, da caridade uma festa, do prazer um sensualismo. O contágio mental flutua na atmosfera e acossa por todas as partes; nunca se viu um estúpido tornar-se original por contato, mas é freqüente ver um gênio apagar-se entre simplórios.

É mais contagiosa a mediocridade do que o talento.                                                          

Os rotineiros raciocinam com a lógica dos outros. Carecem de bom gosto e de aptidão para adquiri-lo. Se o humilde guia do museu não os detivesse com insistência, passariam indiferentes pela Madona de Fra Angélico ou por um retrato de Rembrandt; lá fora, ficariam encantados diante de qualquer vitrine com quadros de toureiros espanhóis ou generais americanos. Ignoram que o homem vale pelo seu saber;  negam que a cultura é a mais profunda fonte da virtude. Suas pupilas se deslizam frivolamente sobre livros absurdos; gostam dos mais superficiais, desses que uma mente lúcida nada poderia aproveitar, embora pareçam bastante profundos para atrair o simplório.

Engolem sem digerir até a indigestão mental; ignoram que o homem não vive do que engole, mas do que assimila. A indigestão excessiva pode converter um medíocre em erudito e a repetição pode formar hábitos de ruminante. Mas, empilhar dados não é aprender, engolir não é digerir.

Medíocres são prosaicos. Não têm anseio de perfeição: a ausência de ideais não permite acrescentar em seus atos a pitada de sal que poetiza a vida.

Estão saturados de idiotice humana.”


A primeira vez que o vi foi no seu próprio País, a Colômbia...e não queria mais sair do museu porque sua pintura me cativou, me encantou, me manteve meio que plantado no chão e com um sorriso no canto da boca. Ainda hoje é assim mesmo que vejo as dezenas de telas do Fernando Botero  (Medellin, 1932) que tenho no meu computador. Com admiração, encantamento e humor.  Sua pintura é universal e, claro, inconfundível. Li recentemente uma entrevista dele no jornal El País da Espanha onde dizia que não pinta gordos, pinta volumes. Tudo que pinta é volumoso: árvores, animais, objetos, mas suas figuras humanas são irresistíveis.  

Recentemente, o artista retratou a violência e a tortura dos soldados americanos durante a invasão do Iraque – são cenas bárbaras e dramáticas baseadas em fotografias que os jornais do mundo inteiro revelaram.

Aos que afirmam que sua pintura se baseia em deformações ele retruca:

“A deformação sem um adjetivo superior seria uma caricatura, ou mesmo uma monstruosidade. Não pinto pessoas gordas, as pessoas gordas refletem apenas uma preocupação estética e possui uma função estilística.”

Um dos meus pintores favoritos, Fernando Botero entra no blog pra valorizá-lo e botar nos leitores o mesmo sorriso de canto de boca que senti há alguns anos.

O quadro acima é EL CIRCO

Mais um Fernando Botero pra garantir a beleza e o sorriso

Continuo a série de textos extraídos do estudo sobre O Homem Medíocre, livro do escritor argentino José Ingenieros  que podem nos fazer compreender melhor este homem que ocupa quase todos os espaços e que se reproduz com uma velocidade enorme tornando tudo ao seu redor amesquinhado e pequeno como sua mente limitada.

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Homens medíocres quando se juntam são perigosos. A força do número supre a debilidade individual: associam-se aos milhares para oprimir os que se negam a alinhar-se à rotina. A mediocridade é moralmente perigosa e seu conjunto é nocivo em certos momentos da história.Apesar de não merecerem atenção quando estão isolados, em conjunto constituem um regime, representam um sistema especial de interesses inalteráveis. Invertem o quadro de valores morais, falsificando nomes, desvirtuando conceitos: pensar é um desvario, a dignidade é irreverência, é lirismo a justiça, a sinceridade é bobagem, a admiração, uma imprudência, a paixão, ingenuidade, a virtude, uma estupidez. 


Na luta das conveniências presentes contra os ideais futuros, do vulgar contra o excelente, é comum ver o elogio do subalterno misturado com a difamação do respeitável.                  

Os dogmáticos e os servis afiam seus silogismos para falsear os valores na consciência social; vivem na mentira, nutrem-se dela, semeiam-na, regam-na, podam-na, colhem-na. Assim criam um mundo de valores fictícios que favorece a culminação dos obtusos; assim tecem sua teia de aranha surda ao redor dos gênios, dos santos e dos heróis, impedindo a admiração da glória. Fecham o curral a cada vez que vibra nos arredores o voo inequívoco de uma águia.                                                                                                           

Nenhum idealismo é respeitado. Se um filósofo estuda a verdade precisa lutar contra os dogmáticos mumificados; se um santo persegue a virtude se estilhaça contra os preconceitos morais do homem acomodatício; se o artista sonha novas formas, ritmos ou harmonias, as regulamentações oficiais da beleza cerram o seu passo; se o enamorado quer amar escutando seu coração, choca-se contra a hipocrisia do convencionalismo; se um impulso juvenil de energia quer inventar, criar, regenerar, a velhice conservadora corta seu passo; se alguém, com gesto decisivo, ensina a dignidade, a multidão dos servis grita; os invejosos corroem a reputação dos que seguem o caminho das montanhas com furor malévolo; se o destino chama um gênio, um santo ou um herói para reconstituir uma raça ou um povo, a mediocracia tacitamente organizada resiste para escolher seus arquétipos.                                                                                                                             A vulgaridade é o reflexo da mediocridade.

Começo aqui uma série de textos extraídos do estudo sobre O Homem Medíocre, livro do escritor argentino José Ingenieros. A cada 15 dias vou postando os melhores extratos que podem nos fazer compreender melhor este homem que ocupa quase todos os espaços e que se reproduz com uma velocidade enorme tornando tudo ao seu redor amesquinhado e pequeno como sua mente limitada. 

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O homem medíocre é uma sombra projetada pela sociedade; é essencialmente imitador e está perfeitamente adaptado pra viver em rebanho, refletindo as rotinas, preconceitos e dogmatismos reconhecidamente úteis para a domesticidade.

Assim como o inferior herda a "alma da espécie", o medíocre adquire a "alma da sociedade". Sua característica é imitar todos os que o rodeiam: pensar com a cabeça alheia e ser incapaz de formar ideais próprios.

Todos os homens de personalidade firme e de mente criadora, seja qual for sua escola filosófica ou seu credo literário, são hostis à mediocridade. O medíocre não inventa nada, não cria, não empurra, não rompe, não engendra.

A psicologia dos homens medíocres se caracteriza por um risco comum: a incapacidade de conceber uma perfeição, de formar um ideal. São rotineiros, honestos e mansos; pensam com a cabeça dos outros, compartilham a hipocrisia moral alheia e ajustam seu caráter à domesticidade convencional.

Estão fora de sua órbita a genialidade, a virtude e a dignidade, privilégios do caráter excelente.

São cegos para a aurora; ignoram a quimera do artista. Condenados a vegetar, não suspeitam que existe o infinito além de seus horizontes. 

O horror do desconhecido ata-os a mil preconceitos, tornando-os covardes e indecisos: nada pica sua curiosidade; carecem de iniciativa e olham sempre o passado, como se tivessem olhos na nuca.

Medíocres não vibram conforme as tensões mais altas da energia. Não sabem estremecer de arrepio com uma suave carícia, nem se lançar de indignação ante uma ofensa.

Trocam sua honra por uma homenagem.

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06
OUT

No Brasil ignoramos os grandes artistas da América Latina. Imaginamos que estamos sozinhos neste imenso continente e deixamos de conhecer gênios como o cantor uruguaio Alfredo Zitarrosa, milongueiro amado e admirado por todos os outros povos desta nossa América. O também uruguaio escritor Eduardo Galeano conta esta bela história:

Quando Alfredo Zitarrosa morreu em Montevidéu, seu amigo Juceca subiu com ele até os portões do Paraíso, para não deixá-lo sozinho naqueles trâmites. E quando voltou, Juceca nos contou o que havia escutado.

São Pedro perguntou nome, idade, ofício.                                                                                                              -Cantor - disse Alfredo.

São Pedro não conhecia. Foi picado pela curiosidade e ordenou:                                                                                     -Canta alguma coisa

Alfredo cantou. Uma milonga, duas, cem. São Pedro queria que aquilo não acabasse nunca. A voz de Alfredo, que tanto tinha feito vibrar os chãos, estava fazendo vibrar os céus.

E Deus, que andava por ali pastoreando nuvens, esticou a orelha. E Juceca contou que aquela foi a única vez em que Deus não conseguiu saber quem era Deus.

Pois vejam e ouçam Alfredo Zitarrosa pra aplacar um pouco a ignorância que nos assola sobre nossos irmãos latino americanos.

11
JUL

  É Proibido... chorar sem aprender. Levantar-se um dia sem saber o que fazer. Ter medo de suas lembranças. Não rir dos problemas. Não lutar pelo que se quer. Abandonar tudo por medo. Não transformar sonhos em realidade. Não demonstrar amor. Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau humor.
É Proibido... deixar os amigos e só chamá-los somente quando necessita deles. Não ser você mesmo diante das pessoas. Fingir que elas não te importam. Ser gentil só para que se lembrem de você. Esquecer aqueles que gostam de você. Não fazer as coisas por si mesmo. Ter medo da vida e de seus compromissos. Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É Proibido... sentir saudades de alguém sem se alegrar. Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se desencontraram. Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente. Não tentar compreender as pessoas. Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte. Deixar de dar graças a Deus por sua vida. Não ter um momento para quem necessita de você. Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É Proibido... não buscar a felicidade. Não viver sua vida com uma atitude positiva. Não pensar que podemos ser melhores

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O chileno Pablo Neruda (1904-1973), foi um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX. Amado por todos que o lêem em dezenas de obras fundamentais para a poesia e literatura latinoamericanas. Sua autobiografia CONFESSO QUE VIVI de 1974 é preciosa, emocionante até porque revela o poeta na sua simplicidade e humanidade plenas. Aqui um extrato de um dos muitos belos textos de Pablo Neruda.

 

Quem costuma ler este blog sabe do meu amor pela nossa América Latina e por alguns dos seus escritores, especialmente.        

Um deles é Eduardo Galeano, uruguaio. Encontrei nos meus guardados este texto dele. Tão simples e bonito, porque verdadeiro

 

“Nenhum local de maior beleza, às vezes oculta, e que nem sempre merece a nossa curiosidade como o coração. Nenhum país é mais rico, bonito, colorido e instigante como esse órgão que habita o nosso peito. Nenhuma terra é tão misteriosa e tão fértil. Nada move tantos sonhos e sangue, vida e alma como o coração.

Leva o meu contigo e com ele seus mistérios, suas vidas, meus fados e magias. Descobre que nele, como no teu, a vida é mais bonita, tem mais significado e animação do que em qualquer outro lugar”

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